segunda-feira, 30 de março de 2015

Dificuldade em se afastar dos pais e apego em excesso pode indicar Ansiedade de Separação

Foto: MorgueFile

Filhos naturalmente podem ser muito apegados aos pais (ou a alguém com quem possuem uma aproximação maior) e isso está ligado a várias circunstâncias como a idade da criança, algum evento específico, seu temperamento, etc. Devido a esse apego, é comum que pais lidem com situações em que a criança chora, grita ou esperneia quando eles saem para trabalhar ou quando ela precisa ir para a creche, por exemplo. Esse comportamento faz parte do desenvolvimento normal e demonstra que a criança construiu vínculos afetivos e enxerga nos pais uma referência de segurança a quem recorrer.

Dependendo da idade da criança (quanto mais nova, mais comum que aconteça) realmente pode ser assustador se separar dos pais. Sabemos que não é do dia para a noite que se adquire autonomia, e que se constrói a própria identidade. Porém, a partir de certa idade, se espera que a criança desenvolva essa autonomia, de acordo com suas capacidades e explore o mundo e suas possibilidades. As situações do dia a dia, por mais que desconhecidas, devem ser vivenciadas e não causar sofrimento extremo. 

Por isso hoje vou falar de um tema que é comum na infância e na adolescência e que precisa ser discutido para que os pais percebam quando devem procurar ajuda. Inicialmente alguns podem dizer: “é uma criança muito apegada, não consegue ficar longe dos pais”. Mas até que ponto isso traz prejuízo à criança e aos pais?

Chamamos de Ansiedade de Separação quando a criança possui sentimentos intensos de medo e angústia por ter que se separar dos pais. Esse quadro causa prejuízos na vida da criança, a impede de se dedicar aos estudos plenamente, prejudica sua vida social e nos leva a uma série de situações que vou descrever para que vocês possam estar atentos. 

- Qual a idade do seu filho?

Quando falamos de ansiedade de separação a idade é importante, pois indica se a criança já entende algumas situações, se já consegue se relacionar com outras crianças e adultos, se já sabe realizar algumas tarefas sozinha, etc. Isso interfere no medo de se separar dos pais e tende a diminuir à medida em que ela cria mais autonomia e confiança.

O período entre seis meses a dois anos é uma fase onde existe um medo maior quando a mãe ou o pai se afasta. Isso porque a criança ainda não entende que os pais sairão, mas depois irão retornar... é algo comum da idade e naturalmente desaparece com o desenvolvimento.

A ansiedade de separação tem início antes dos seis anos, mas pode se estender até a adolescência. Portanto, é importante observar como a criança se comporta até essa idade e se ainda apresenta dificuldades significativas ao ficar longe dos pais. 

- Esse comportamento é persistente e excessivo?

Como é comum que crianças pequenas apresentem ansiedade devido à separação, devemos analisar se essa ansiedade é persistente e excessiva. Se seu filho chora copiosamente ou se preocupa constantemente com o fato de ficar longe de você, analise se é algo persistente (que dura pelo menos 4 semanas) e excessivo. Uma criança com ansiedade de separação começa a demonstrar uma reação exagerada e um medo irreal, que não se justifica (como por, exemplo, medo da mãe sofrer um acidente, morrer ou simplesmente medo que as pessoas queridas “desapareçam”, em situações em que isso não é provável acontecer). 

- Como essa ansiedade aparece no comportamento do meu filho (a)?

Crianças pequenas irão chorar, gritar ou ter crises de raiva para evitar ao máximo a separação. Essa é a forma que elas encontram de se comunicar. Lembrando que essas reações que estamos falando devem ocorrer antes, durante ou imediatamente após o momento que a criança se separa da pessoa querida. Isso pode ocorrer em diversas situações, seja no momento de ir para a creche ou até dentro de casa, como a mãe ir à cozinha enquanto a criança fica no quarto (quando se percebe que há uma ansiedade exagerada até em situações corriqueiras). Já as crianças com mais idade podem demonstrar essa ansiedade de forma mais sutil. Elas podem não chorar, mas os pais vão perceber preocupações e temores exagerados (medo que os pais sofram um acidente, que sejam sequestrados ou que não voltem para casa, preocupação exagerada com os horários de saída e chegada, etc.). É comum também ligar exageradamente para os pais, se certificando que esteja tudo bem.

A hora de dormir também é importante. Crianças que têm medo de se separar dos pais sentem desconforto nesse momento, podem ter dificuldades em adormecer ou somente conseguir dormir na presença dos pais e essa rotina tende a permanecer por um tempo considerável. Pode existir também uma grande angústia sobre a possibilidade de dormir fora de casa, o que a faz evitar situações sociais. Pesadelos recorrentes com o tema separação podem aparecer.

Observe também se seu filho apresenta dores de cabeça, vômitos, náuseas e dores abdominais. Essas reações somáticas são comuns em quadros de ansiedade.  As náuseas podem ocorrer, por exemplo, pouco tempo antes de ir para a escola ou após os pais saírem de casa. A criança pode adoecer para evitar sair ou para que a mãe falte ao trabalho e permaneça em casa, por exemplo.

Crianças com ansiedade de separação podem tentar ao máximo adiar o momento da separação, por isso é bom estar atento. Demora demais no banheiro, recusa a acordar ou faltas constantes na escola, por exemplo, devem ser analisadas.

- Como isso prejudica a vida do meu filho (a)

Quando uma criança está com ansiedade de separação, o medo/angústia de se separar dos pais é tão grande que isso acaba impedindo o andamento normal de suas atividades cotidianas. Ir para a escola pode deixar essa criança tão mal que ela poderá se retrair, se isolar e não conseguir se envolver nas atividades. A preocupação com os pais poderá ser tão intensa que ela não conseguirá pensar em mais nada e, consequentemente dificuldades de atenção e prejuízos no aprendizado vão acontecer. Veja que é diferente da criança que chora ao chegar na creche/escola, mas com o tempo para de chorar e consegue participar normalmente da rotina escolar. Também é diferente dos momentos de adaptação, como troca de escola ou primeiro dia de aula. O medo/angústia devem ser exagerados e persistentes, percebendo-se que a criança não consegue se adaptar e que outras situações como essa também ocorrem em outros ambientes fora da escola. Ela poderá começar a evitar situações do dia a dia só por medo de estar longe dos entes queridos e isso é um sinal de que a ansiedade está prejudicando a vida da criança.

A ansiedade de separação é uma questão que deve ser observada e tratada, assim a criança poderá voltar a ter uma rotina normal e evitará prejuízos na vida social, acadêmica e afetiva. Quando não tratada, a ansiedade de separação pode se estender durante a adolescência e, na vida adulta, outros tipos de ansiedade ou outros quadros psicológicos podem surgir, causando sofrimento e prejuízos que a impedem de enfrentar os desafios da vida.

Os pais podem ajudar, evitando uma superproteção.. permita a criança explorar o mundo (garantindo um ambiente seguro que ela possa explorar) e a deixe tomar decisões de acordo com sua idade (seja na escolha de um brinquedo, na escolha de uma roupa, etc.).  Pais ansiosos também podem criar situações que façam a criança ter medo, por isso é preciso naturalidade nos momentos de dormir e ao deixar a criança na creche, por exemplo. Criticar a criança também não é uma boa saída. Isso poderá aumentar seu sofrimento e prejudicar sua autoestima. Caso necessário, procure ajuda e orientação de um psicólogo.


Espero que com essas dicas vocês possam tirar algumas dúvidas e saber diferenciar quando o apego é normal ou quando indica a necessidade de uma atenção especial.

Mayara Medeiros

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